5 dicas para “re-startar” sua PME

A transformação digital de Micros e Pequenas Empresas é inevitável, mas percorrer esse caminho pode ser um grande desafio. Saiba como digitalizar o seu negócio com as dicas do Mentor InovAtiva.

* Por Augusto Pinto

Startups estão na moda. No mundo todo. Porém, existe um lado não sexy nessa tendência, do qual a mídia pouco fala, que é sua alta taxa de mortalidade, particularmente no Brasil. Segundo a Folha de São Paulo, em artigo de 28/05/2017, “62% das startups, apoiadas por investidores, não deram certo nos últimos 5 anos”. Enquanto isso, a mesma FSP menciona que, segundo o SEBRAE, “a taxa de mortalidade entre as empresas, de modo geral e incluindo as PME’s, é de apenas 33%”.

Cada um lê estatísticas como quer, mas as cifras acima são muito interessantes e se prestam a leituras que podem ser muito úteis entre as pequenas empresas, startups ou não. Inicialmente vamos nos focar nos méritos das PME’s do mundo concreto, empresas da economia real, de “tijolos e cimento”, como os gringos gostam de definir. Essa empresas têm o mérito do conservadorismo, baseado em competências muito saudáveis, tais como planejamento financeiro, processos, boas práticas de governança, valorização do RH, foco em marketing e vendas, e outras “baboseiras”, na visão das startups mais afobadinhas. Essas são as competências que seguram a onda nos momentos de dificuldades na economia e no mercado, e que nunca cairão de moda, porque são fundamentos. E é exatamente por esse conservadorismo em negócios que as PME’s têm uma taxa de sucesso tão mais elevada do que as startups.

Porém, como todo copo tem seu lado meio cheio e meio vazio, vamos atentar um pouco para o lado charmoso das startups. Por que a maioria dos investidores está louquinho para arriscar seu rico capital em startups, algumas delas com ideias malucas que ninguém garante que ficarão em pé, enquanto são tão conservadores para investir em PME’s da economia tradicional? O texto da pergunta já contém a resposta: a maioria das PME’s operam dentro dos limites da economia convencional, enquanto as startups operam no âmbito da nova economia, a economia digital, onde também estão (bingo!) a maioria dos novos consumidores. Ou seja, o rico dinheirinho dos investidores tem pressa e eles enxergam uma taxa de retorno, muito mais rápida, embora mais arriscada, nas startups e nos negócios da nova economia.

Mas, deixando os jargões de lado, o que é mesmo que caracteriza a chamada nova economia, ou economia digital? A economia digital, contexto nativo do surgimento as startups, resulta (segundo o site do Novo Empreendedor Digital ) da convergência e da integração de 5 forças de mercado:

  • 1. Redes Sociais.

  • 2. Mobilidade e popularização massiva dos smartphones (inclusive e principalmente no Brasil).

  • 3. Armazenamento barato e seguro de informações na nuvem.

  • 4. Acesso pleno e irrestrito às informações pelo público, proporcionada pela Internet e pelo Google.

  • 5. Internet das Coisas (IOT), que integra o mundo físico com o virtual.

E aí cabem algumas perguntas óbvias. Por que negócios tradicionais, em particular PME’s, não podem “pensar” como startups? Quais são as dificuldades para digitalizar uma PME de sucesso? Quais seriam as melhores estratégias para digitalizar PME’s, tentando reduzir o risco de falha inerente? Não são perguntas fáceis de responder, até porque se o fossem a maioria das PME’s já teria se reinventado no mundo digital. Mas, vamos tentar uma resposta sucinta no âmbito estreito deste artigo.

Na verdade, o desafio de transformação digital dos negócios não se limita apenas às startups, mas a todas as empresas da economia tradicional, mesmo as gigantes de cada setor. Você não tenha dúvida de que o assunto mais importante do momento nos board rooms das grandes corporações, sejam bancos, gigantes da telefonia, empresas de varejo, ou de prestação de serviços (essas em particular), é a transformação digital de seus negócios. E a razão é simples: a mudança de hábitos do novo consumidor (geração Y e mais recentes) os impulsiona a se mudar dos modelos de negócios tradicionais para os digitais, num piscar de olhos. E aí o banco digital mata o bancão tradicional, o Uber mata as cooperativas de táxi e as grandes montadoras, o AirBnb mata as grandes redes hoteleiras e o mata-mata continúa em todos os setores da economia.

Ou seja, “o estupro” da nova economia é inevitável, seja sua empresa uma PME ou não. Porém, se para as grandes corporações a transformação digital de negócios é difícil e arriscada, para as PME’s é ainda mais e por isso o assunto deve ser tratado com alta prioridade, mas com extremo cuidado. Se formos pensar numa cartilha de transformação digital de negócios, poderíamos elencar 5 dicas que, se seguidas, reduzirão em muito os riscos:

1. Entenda muito bem o comportamento de seu público consumidor. Hoje todos nós deixamos “rastros” na Internet, seja pelo conteúdo que postamos nas redes sociais, pelas reclamações que fazemos no Reclame Aqui, ou no Twitter, e até mesmo pelos comentários que enviamos para os sites das empresas das quais nos servimos. E, no limite, querendo gastar um pouco mais, lance mão de pesquisas de comportamento.

2. Relevância e utilidade. Não basta digitalizar um negócio, para deixá-lo mais “bacaninha”, a transformação digital tem que trazer relevância e praticidade para o dia a dia dos consumidores. Vamos imaginar o exemplo banal de uma lavanderia de bairro, aquela logo ali na sua esquina. Todas as semanas a dona de casa coloca suas roupas sujas num saco e as leva até a lavanderia. Aí o dono da lavanderia tem uma ótima ideia e, usando seu cadastro de clientes, envia um e-mail para cada um oferecendo a vantagem que criar seu rol de roupas para lavar da semana diretamente no site da lavanderia. Bela vantagem, né, transferir o trabalho que o dono teria para o cliente. Agora, que tal se, alternativamente, o dono da lavanderia colocasse no site uma lista pronta de itens padrões para lavagem, com preços pré-definidos, e se apenas preenchendo as quantidades na sua lista o cliente tivesse a o conforto da coleta e entrega a domicílio, com o débito automático da conta em seu cartão de crédito? Bem melhor, né?

3. Simplicidade. Esse é talvez o maior paradigma da economia digital. Tudo tem que ser simples, fácil de entender e fácil de usar para ter sucesso. Compare o relativo sucesso das plataformas de apps de táxi com o Uber. Os apps de táxi, mesmo os mais caprichados, são mais complicados, você tem que se cadastrar, se por exemplo quiser usar o cartão de crédito. O Uber, por outro lado, é simplérrimo. Tem um menuzinho básico com as opções de carro e dois boxes, um para o endereço de partida e outro para o destino. Depois que você utilizar o cartão uma vez, basta autorizar que ele será guardado automaticamente para a próxima viagem. E, se você quiser pensar no paroxismo da simplicidade associada ao sucesso, pense no Google. A chave do sucesso é: usar a sofisticação da tecnologia para simplificar a vida das pessoas.

4. Velocidade. Mais um paradigma do mundo digital. Nada que é lento e demorado para implementar é bom, por uma razão muito simples: enquanto você pensa e repensa, alguém já lançou uma coisa mais simples e apenas “70% perfeita” antes. E aqui surgem alguns termos importantes de se entender, um deles é o MVP (Produto Minimamente Viável). O conceito do MVP propõe que você pense bastante (entenda o público) antes de lançar um novo produto ou serviço digital, mas não tente lançar o produto perfeito e completo. Lance um bom MVP básico e vá melhorando paulatinamente com a colaboração dada pelos próprios clientes.

5. Interatividade. Difícil dizer quais dessas 5 dicas eu gosto mais, mas certamente essa última é uma das minhas favoritas. A economia digital é interativa e ponto final. Empresas e consumidores se sentem no direito e no dever de interagirem e quem não entender isso está morto. E interatividade passa por entender um outro jargão que é a usabilidade (UX, ou Customer Experience). Quando o usuário quiser interagir a experiência de uso tem que ser esplêndida. Isso vale tanto para o painel de LED de um carro de luxo, como para um simples site de empresa. O visual tem que ser agradável, as coisas têm que ser fáceis de achar e simples de entender. E tudo, absolutamente tudo, sites, apps, canais corporativos em rede sociais, portais de negócios, etc, tem que ter conteúdo de valor para o público e espaço para interação (Fale com a Gente, chats, opções de subscrição de conteúdos, espaço para comentários/sugestões/reclamações, etc). E, last but not least, se você pediu para um cliente se expressar, leia, leve a sério e responda com ações concretas. A falta de responsividade em negócios digitais é altamente tóxica!

A lista de recomendações poderia ser bem maior. Poderíamos falar do desafio de formar e reter os colaboradores digitais, dos novos modelos de negócios, das tecnologias e plataformas disponíveis, inclusive as tecnologias abertas, da importância e dos riscos dos fundos de investimentos, da importância da capacitação e do apoio de entidades sérias como por exemplo um SEBRAE, etc. Mas, a lista seria muito longa e impossível de cobrir num simples artigo. Prefiro terminar com duas recomendações: 1) leve a sério e priorize a transformação digital de sua PME (até porque ela é inevitável) e 2) se prepare para essa travessia, que será muito legal, divertida, valerá a pena, mas será necessariamente turbulenta.

E boa sorte!



Sobre o Autor: Augusto Pinto
Mentor InovAtiva e Engenheiro de formação, Augusto tem mais de 30 anos atuando no mercado de TI. Iniciou a carreira na IBM, de onde saiu para se tornar um executivo bem sucedido na indústria de software. Foi o 1º presidente da SAP Brasil, onde atuou por sete anos, e também VP América Latina da Siebel Systems. Atua há 13 anos em Comunicação Corporativa, como sócio fundador da RMA Comunicação. Augusto iniciou a RMA com a visão de auxiliar empresas de tecnologia a traduzirem seu valor para o mercado. O sucesso obtido no mercado de TI levou a empresa a outros mercados, como saúde e educação, onde se consolidou com a imagem de líder visionária. Para ler mais artigos do mentor acesse esse link
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