Você é um empreendedor ou um empregado de si mesmo?

Um dos grandes desafios do empreendedor é conseguir construir um negócio que seja maior que ele próprio e que se sustente por si só.

Por Roberto Patriarca

Vou começar este post com uma história, já que storytelling está tão em moda ultimamente. Conheci a Juliana numa das feiras de gastronomia que visito. Ela vendia granola que ela mesma fazia com receita que havia desenvolvido. E eu adorei o produto dela. Na época meu café da manhã consistia basicamente de um prato de granola com leite todo dia e inspirado pela história da Barnaked Granola imaginei que poderíamos fazer o mesmo com o produto da Juliana. Brinquei que queria investir na empresa dela e ela respondeu que estava mesmo a procura de um sócio, pois queria expandir, profissionalizar e sair da produção caseira. À época eu estava montando um espaço de co-working de gastronomia (o que viria a ser a Cook it Here) e comentei que quando a cozinha estivesse pronta voltaríamos a falar.

O projeto da cozinha compartilhada atrasou alguns meses e quando encontrei a Juliana novamente ela me comentou que não mais queria um sócio, mas que estava vendendo o negócio, tendo já anunciado entre seus amigos. Surpreso, eu perguntei o porquê e ela me respondeu que não estava conseguindo conciliar o trabalho fixo durante a semana com a demanda de comprar ingredientes e preparar e vender as granolas nas feiras durante o fim de semana. Então eu perguntei, mas se você faz tudo, que negócio você está vendendo? Ela pareceu não entender a pergunta.

Um dos grandes desafios do empreendedor é conseguir construir um negócio que seja maior que ele próprio e que se sustente por si só. Normalmente começamos nossos empreendimentos contratando a pessoa mais barata que encontramos – que somos nós mesmos. Somos os únicos que aceitamos trabalhar de graça e como a empresa é ainda um projeto, na dúvida vamos com o mais barato.

O problema é que ao fazermos isto, não haverá ninguém para ir atrás de novos clientes, de pensar a estratégia, de desenvolver o marketing, de projetar o crescimento. Então duas coisas podem acontecer: ou temos um colapso de stress ou ficamos presos no dia-a-dia e não conseguimos fazer o negócio crescer. Viramos empregados de nós mesmo.

Claro que no início, sem dinheiro para investir, com uma ideia que ainda precisa ser testada, você vai começar fazendo tudo sozinho. Mas é fundamental ter a disciplina de entender as necessidades da empresa, e, principalmente, fazer com que cada nova pessoa contratada seja melhor no seu trabalho do que você. Até o momento em que você, como empreendedor, não tenha nenhuma outra função que não pensar a estratégia e buscar novos talentos. É isto que chamamos de modelo escalável de negócio.

Voltando à história da Juliana. Não sei se ela conseguiu vender o empreendimento, mas o que ela não entendeu é que ao ter um negócio em que ela fazia de tudo, por melhor que fosse o produto, o valor da empresa ainda era ela. E isto ela não podia vender.



Sobre o Autor: Roberto Patriarca
Roberto Patriarca é mentor InovAtiva e atua há 25 anos no mercado financeiro nas áreas de planejamento, estratégia, marketing e governança. Sócio-investidor em algumas MPEs e mentor de start-ups. Formado em Administração na FGV e cursando Mestrado em Administração com ênfase em Estratégia no Insper.
Compartilhar